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Sons e silêncios (ou como morrer de amor no Largo do Estácio)

O carioca Luiz Carlos dos Santos não recebeu o apelido de Melodia por acaso. Poucos flutuaram com tanta competência e suavidade por ritmos distintos como o samba, a MPB, a tropicália, o rock, o blues e o soul. Todos estilos bem diferentes, que ele provou com maestria serem compatíveis entre si. E 66 anos de idade – mais de 40 de carreira nacional – agora parecem pouco para representar essa versatilidade, essa rica polivalência musical.

Naturalmente, quem era do Morro de São Carlos na época em que ele cresceu por lá vivia uma intensa efervescência do samba. Estácio sempre foi terra de bambas: de Ismael Silva a Mestre Marçal, de Bide a Gonzaguinha. E passando pelo seu Oswaldo Melodia, pai de Luiz, sambista e compositor da região. Quem vem do berço do samba não pode desvirtuar.Luiz já tocava por lá desde os 12 anos, mas foi só na década de 70 que a carreira decolou com Maravilhas Contemporâneas. Dali para frente a criatividade e a riqueza musical do Melodia filho deu ao Brasil obras de arte como Pérola Negra, Estácio Holly Estácio, Juventude Transviada, Fadas, Magrelinha, Ébano, Quase Fui Lhe Procurar, Dores de Amores e tantas mais.

Não cabe aqui destrinchar a carreira completa desse gênio. Não é fácil vir do morro e chegar longe assim, romper as barreiras sociais e se distinguir criando uma forma tão única de compor e tocar – além de também ser grande intérprete, dono de uma voz marcante. Ainda assim, e não sabemos muito bem o porquê, ele nunca pareceu ter o reconhecimento que merecia do grande público, da grande mídia.

Agora, post mortem, quem sabe, o termo melodia pode ser definido como o conjunto de sons e silêncios que, juntos e em sequência, formam uma identidade musical. Mas, para isso, é preciso ter coerência – do contrário seria apenas barulho, sem fazer sentido a quem ouve. Ao lado do ritmo e da harmonia, podem se tornar das coisas mais belas que a humanidade já fez. E nunca faltou nada disso a ele.

Foi a paixão pela música, com toda essa graça e leveza para criar sem amarras a um ou outro gênero, que fez Luiz chegar onde chegou. Que o tirou do São Carlos e o levou para os ouvidos de tanta gente. E, mais importante, o permitiu tocar tanta gente com seu ritmo híbrido, criativo, diferente de tudo que veio antes. Se Melodia deixa uma lição, talvez seja essa: ame mais. Tente amar quem está te amando. Ou, ao menos, que morra de amor no Largo da Estácio.

Vinicius Carvalhosa, jornalista

2 respostas em “Sons e silêncios (ou como morrer de amor no Largo do Estácio)”

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