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Saúde do trabalhador é uma questão de amor

Site Multiplicadores de Visat (Vigilância em Saúde do Trabalhador), da FioCruz

Em tempos de amor livre e ódio liberado é preciso colocar em nossa agenda de reflexões essa questão. O amor, é óbvio, não precisa de explicação, justificativa, mirabolantes teses psicológicas para sabê-lo, entendê-lo, senti-lo. O amor é o amor e pronto. Amor pela vida, pelos filhos, pelos amigos, pelas pessoas amadas, pela natureza, pelos animais, pelo pôr-do-sol e o seu nascer, pelo amor mesmo. Sem ele, que vida sem sentido existiria?

E para quem está na saúde do trabalhador, pesquisando, ensinando e aprendendo, nela militando e a defendendo, o amor flui como fluiria um processo de trabalho digno e saudável. Na saúde do trabalhador impera um tipo de amor. O amor pela justiça, o amor pelo outro, o amor pelo respeito à vida, o amor pelo trabalho que acolhe e não pune, o amor pelo direito humano de ser respeitado e desfrutar da vida digna.

Mas o ódio merece, esse sim, explicação e justificativa. Pois é dele que flui a saliva maledicente justamente contra o amor. É incrível que haja ódio nas relações familiares, nas relações de trabalho, nas relações políticas, nas relações de amizade, nas redes sociais. Há ódio gratuito por aí, no trânsito, na rua, nas festas, nos bares. Amor e ódio são sentimentos da natureza humana. Difícil, quase impossível, é abandoná-los. Mas é possível amestrá-los. Direcioná-los. Refletir sobre eles.

A um ou outro devotamos parte de nosso tempo e nossa opção de um dado modo de viver. Então, 2018 chegando, cabe, como em todos os anos têm cabido, fazer opções. E a opção continuará, como sempre, sendo entre o amor e o ódio. O amor, já se falou, é óbvio, mas o ódio que saliva contra o amor é intolerável. Portanto, redirecionar o ódio humano é uma opção de vida e uma prova de que somos animais inteligentes. Amestrar o ódio humano e redirecioná-lo é uma prova de inteligência.

Não se supera o ódio mirando pessoas. Personalizar o ódio é voltá-lo contra nós pelo espelho do outro. Não será contra as pessoas que, como nós, não conseguem extirpá-lo de sua alma, que vamos resolver as grandes questões. O eventual ódio que se sente quando se vê a morte e a doença no trabalho, na grande parte das vezes, acometendo jovens rapazes e moças trabalhadoras, deve servir para alguma coisa e não apenas para se tornar um sentimento vazio. É preciso transformá-lo numa causa de amor, de luta, resistência, tenacidade, coragem, inteligência e paciência.

O descaso da maioria dos patrões, a omissão de praticamente todos os governos, a indiferença de quase todos os políticos, a insensibilidade de alguns representantes dos trabalhadores, o ‘dar de ombros’ de muitos profissionais de saúde, o medo de muitos trabalhadores, a frieza das instituições cuidadoras, a incompreensão das pessoas em geral com a questão da saúde no trabalho não deve ser motivo de ódio com a situação que, todos os que militam na saúde do trabalhador, sabem que é catastrófica.

O amor pela causa é a palavra de ordem. Mas palavras de ordem não bastam sem ações objetivas, efetivas, incisivas e definitivas.

Cada ano que chega, a rigor, nada muda pois não muda o percurso da dor dos que já a sentem e não muda o percurso da causa da dor dos que ainda a sentirão. Mas, a mudança da data pode representar a data da mudança. O simbolismo que traz o ano que chega deve servir para algo mais do que champanhe e fogos de artifício.

Olhar para a frente, em matéria de saúde do trabalhador, é olhar para trás e perguntar por quê? Por que as coisas ainda não deram sinais de mudança? As razões são muitas, as perguntas mais ainda, mas as respostas ainda são dadas com a timidez dos tímidos, a ineficácia dos ineficazes, o receio dos receosos, a lerdeza dos lerdos. Que 2018 sirva para rasgarmos a capa dura que nos impede de chegarmos à autocrítica. Chegar às razões do quanto fizemos de menos pode ser um com começo de ano para começar a fazer um pouco mais.

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