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Paralisação revela o alto custo da ilegitimidade

Este artigo da economista Laura de Carvalho foi publicado na Folha de São Paulo desta quinta-feira 31 de maio.

Além de confirmar apoio maciço à paralisação dos caminhoneiros, a pesquisa do Datafolha divulgada nesta quarta-feira (30) mostra que a imensa maioria da população percebe que será punida pela redução de impostos e outras medidas anunciadas pelo governo para atender as reivindicações dos manifestantes.

Ainda assim, mais da metade dos entrevistados declarou-se a favor da continuidade da paralisação, mesmo com a aprovação dessas medidas.

Quando combinados às evidências de apoio significativo à intervenção militar entre manifestantes que permaneceram nas estradas, os resultados aparentemente contraditórios da pesquisa revelam o tamanho da encrenca em que estamos metidos.

Sobram razões na história mundial para acreditar que não há risco maior para a democracia do que a total descrença na capacidade do sistema em vigor de melhorar a vida do conjunto da população.

Embora a captura cada vez maior do Estado pelos interesses de poucos seja um fenômeno global, que explica em parte o déficit democrático atual ao redor do mundo, é difícil imaginar um governo nacional que colabore tanto com o aprofundamento do abismo entre as pessoas e o sistema político-econômico quanto o de Michel Temer.

Para além dos efeitos desproporcionais da crise econômica profunda iniciada no governo anterior e do ajuste fiscal feito por meio de cortes de gastos e investimentos públicos sobre a população mais vulnerável, o combo formado por escândalos de corrupção e reformas impopulares de um governo que chegou ao poder pela aliança do velho fisiologismo com a oposição derrotada nas urnas aumentou muito os custos e os riscos da paralisação atual.

Só no ano de 2015, os caminhoneiros realizaram duas paralisações. Em fevereiro, o bloqueio de estradas por duas semanas pela redução no preço do diesel e do pedágio, pelo tabelamento dos fretes e pela flexibilização da jornada de trabalho levou o governo a perdoar multas por excesso de peso, isentar de pedágio os caminhões vazios e flexibilizar horas de trabalho, beneficiando sobretudo os empresários do setor.

Em novembro do mesmo ano, os caminhoneiros voltam a fechar as estradas. Cético quanto à conquista das reivindicações, o líder do movimento da CNT (Comando Nacional dos Transportes) Ivar Schmidt declarou à Folha que o sucesso do movimento dependia da adesão da população à sua pauta principal: a derrubada da presidente Dilma Rousseff.

Dois anos e meio depois, o excesso de volatilidade causado pela irresponsável política de preços da Petrobras somou-se às antigas reivindicações econômicas do setor. Diante dos efeitos maiores da alta do dólar e do preço de combustíveis, de um quadro econômico geral deteriorado e da insistência do governo em proteger empresas importadoras, o custo do acordo para as contas públicas aumentou substancialmente.

A desilusão com os rumos do país também fez com que a pauta de derrubada da presidente Dilma defendida por parte dos grevistas de 2015 evoluísse para uma pauta de rejeição aberta e total ao regime democrático e sua substituição por um regime militar.

O alto custo do experimento Temer não se restringe, portanto, aos de natureza econômica infringidos à maioria da população. O que resta de nossas instituições democráticas também pode pagar caro.

Laura Carvalho é professora do Departamento de Economia da FEA-USP, tem doutorado na New School for Social Research.

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