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O sentido da Revolução Russa

Fernando Horta
No GGN

Às nove horas da noite do dia 25 de outubro de 1917, Trotsky ordenava a invasão do Palácio de Inverno em São Petesburgo. O Palácio era simbolicamente o último refúgio do desgastado governo “provisório” de Kerensky. O ato marca o século XX de maneira indelével. Todo o século reage aos acontecimentos da noite do dia 25 para 26. O primeiro país a construir um sistema socialista no mundo tornou-se razão de ódio e amor até os dias de hoje. A bem da verdade, não há fato histórico no século XX e XXI que não tenha relação com a Revolução Russa. Seja pela promessa de um mundo diferente, seja pela forma com que se libertaram do seu passado, seja pelo heroísmo de suas lutas ou mesmo pela vilania de suas escolhas futuras, os russos – ao se transformarem em soviéticos –  tornaram-se, de certa forma, senhores do século XX.

Depois da queda do Muro de Berlim e do estilhaçar do chamado “modelo de socialismo real”, em 1991, iniciou-se silenciosamente o trabalho de modificar a História. Primeiro era preciso não deixar nenhuma das experiências socialistas de pé. Houve ataques ocidentais à antiga Iugoslávia, à antiga Tchecoslováquia, Romênia e quase todos os países da Europa Oriental. Ataques tão violentos quanto o que a própria Rússia sofria. Por um lado, encantavam as populações com as promessas do capitalismo, por outro, ofereciam aos não convencidos o amargo gosto de sangue. A grande obra de Reagan, Bush, Thatcher, Major e Kohl foi terem diminuído custos e investimentos internos em seus países (com o neoliberalismo) para promoverem um último e decisivo ataque ao sistema socialista no final da Guerra Fria.

O socialismo marxismo-leninista oferecia à humanidade a promessa da libertação das necessidades materiais por meio do aumento produtivo que o sistema socialista (e depois comunista) iria permitir somado à ideia de uma divisão muito mais equitativa das riquezas do mundo. Marx teorizava que o acúmulo de riqueza global chegaria a tal ponto que inviabilizaria a própria lógica de continuidade do sistema capitalista. O século XXI mostra, a cada dia, que o filósofo e economista alemão estava certo.

Na batalha das promessas, que marcou o final do século XX, o capitalismo também prometia à humanidade a libertação de suas necessidades materiais. O desmonte dos sistemas socialistas somente ocorreu porque o capitalismo prometia que um mundo não mais dividido – globalizado, portanto – teria condições de oferecer a todos empregos, comida e uma vida material condizente se não com os padrões do norte ocidental, ao menos mínimos conforme a ONU em sua  época apontava. A globalização, diziam eles, é capaz de criar riqueza material suficiente para o desenvolvimento da humanidade, ainda que em limites mínimos aceitáveis. Limites humanos. E isso sem a necessidade da “brutalidade” das ditaduras socialistas.

A democracia, e o capitalismo, eram a chave para a solução da miséria no mundo. As promessas do final do século XX usavam o “Estado de Bem-Estar Europeu” como exemplo do que se poderia conseguir com democracia, livre mercado e globalização. Encantados por essas promessas, cidadãos dos sistemas socialistas se jogavam nas águas buscando sereias. Helmut Kohl chegou a prometer a paridade entre as moedas da Alemanha Oriental e Ocidental. John Major tomava parte ativa nas negociações de Maastricht para “uma Europa forte”. Bush prometia redução do déficit norte-americano e o uso do dinheiro de “forma racional para melhorar a vida dos americanos”.

Já dois ou três anos após o desmembramento da União Soviética, a ONU mostrava que nenhum dos indicadores econômicos ou humanos tinha melhorado entre os russos. A mortalidade infantil havia aumentado, o acesso à saúde despencado, o desemprego aumentava em proporção alarmante junto com a concentração de renda e até o consumo de calorias por pessoa era menor no capitalismo recém implantado do que tinha sido no socialismo. De fato, nenhuma das promessas feitas para o sepultamento do modelo socialista se confirmou. Nem no curto nem no longo. Passados mais de 25 anos do desmembramento da URSS, a concentração de riqueza atinge níveis maiores do que no século XIX, crianças são mortas na África de fome, no Mediterrâneo afogadas e se tornam escravas do capitalismo pelo mundo afora. Em todos os lugares do mundo.

A fome continua (apesar dos impressionantes esforços de Brasil e China), as divisões econômicas agora ganharam força moral, com o novo conservadorismo fascista e sua “meritocracia” e a única coisa verdadeiramente livre no mundo é o capital. O dinheiro voa de um país para outro com cliques de botão, as pessoas são impedidas de passarem linhas imaginárias chamadas de fronteiras. A tal falta de “liberdade de ir e vir” com que acusavam os países socialistas agora ganhou contornos mundiais. Todos estamos confinados nas fronteiras ditadas por nossas contas bancárias. O que significa que mais de 80% da população mundial não pode sair de onde está.

Os avanços tecnológicos somente são democratizados se o objetivo é vender você. Em todos os lugares do mundo os avanços médicos se submetem aos interesses comerciais (todos menos um!). A educação deixa de ser prioridade para ser apenas uma forma de “inserir minimamente no mercado consumidor”. Qualquer coisa a mais depende de você poder pagar, como afirmou nosso ministro da Educação. Nem Deus agora faz alguma coisa sem receber alguma “oferta”, talvez convencido da superioridade moral e prática do capitalismo.

Você vai viver mais para poder trabalhar até morrer. E vai receber o suficiente apenas para poder comprar o que não precisa a preços que não pode pagar. Como a população do mundo passou dos 7,5 bilhões de pessoas você é um você qualquer. Se você morrer, outro você estará aí para assumir seu papel de mercado. E a menos que você seja uma das oito pessoas do mundo que juntas detém 50% da riqueza mundial, ninguém está pouco se importando exatamente com você.

A verdade é que nem eu, nem você e nem o planeta aguentamos mais o capitalismo. Nenhuma de suas promessas foram cumpridas e estamos a ponto de retornarmos ao século XIX com a atual campanha mundial contra os sindicatos. Trabalho bom é trabalho livre, dizem eles. Como no século XIX, como os meninos carvoeiros que fizeram a Inglaterra industrial ou como os meninos plantadores de cacau da Costa do Marfim que nunca experimentaram chocolate.

Em 1917, quando a Revolução aconteceu na Rússia, ela tinha um sentido. O historiador Christopher Hill descreve uma conversa entre um Comissário do Povo (cargo soviético) e um velho camponês em algum lugar na imensa Rússia do início do século XX: “Havia excitação geral. Todos falavam [na Revolução]. E eu pude ver que eles acreditavam que alguma coisa de novo aconteceria em virtude da qual iriam viver melhor. Eis o sentido da Revolução.”

E aconteceu.

É preciso voltar a acreditar.

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