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Mulheres no mercado de trabalho: exploração e violência caminham de mãos dadas

Por Deise Recoaro
Publicado no Brasil 247

Sai ano e entra ano, as estatísticas se repetem (por vezes pioram) quando o assunto é a participação das mulheres no mercado de trabalho. A divulgação dos números é importante porque escancara uma triste realidade. Porém, corremos o risco de naturalização ou banalização dessa condição por repetição dos infelizes números. Precisamos discutir e entender  a lógica que está por trás deles. Números esses que o sistema (e seus operadores) classificam, ou melhor, desqualificam, como mimimi. 

E por que isso acontece? Por que insistem em minimizar as nossas demandas?

Ora, pelo simples fato de serem “eles”, os maiores beneficiários da condição de opressão da qual estamos submetidas. Vejamos: 

Quem ganha e quem perde com a superexploração das mulheres?

Segundo dados do Dieese, somos quase metade da mão de obra ocupada, ganhamos em média 22% menos, somos mais escolarizadas e somos diariamente violentadas pelo assédio moral e sexual no local de trabalho. Isso sem falar da falta de creche para deixar nossas crianças, da informalidade e precarização dos serviços domésticos, da dupla e tripla jornada de trabalho, das ausências no trabalho provocadas pela violência doméstica. Somos as primeiras a sofrer com o  desemprego que nos assombra e coloca famílias inteiras na indigência.

Tudo isso somado às pressões de uma cultura machista, que insiste em nos culpar por “abandonar” nossas famílias para trabalhar – sendo que 45% das famílias no Brasil, são chefiadas por mulheres (dados Ipea, 2015). Que insiste em nos culpar pelas violências sexuais que sofremos, por razão das roupas que vestimos. Que insiste em nos culpar por interromper uma gravidez indesejada (e de morrer), como se as mulheres engravidassem sozinhas. Que nos culpam pela “incompetência” de não se manter no emprego ou não sermos promovidas, quando interrompemos nossas vidas profissionais para cuidar de filhos e idosos. E que, por esse motivo, não teremos uma velhice digna, porque a Previdência Social desconsidera o trabalho daquelas que garantem as condições necessárias (higiene, alimentação e cuidados)  para trabalhadores e trabalhadoras possam produzir e gerar riqueza. Mulplicam-se essas condições por pelo menos 2, 3 ou 4 vezes. Pior ainda quando essa mulher é negra, lésbica ou trans.

Não é possível seguir naturalizando essa situação, como quem diz “Deus quis assim”. É preciso entender, discutir e desconstruir a perversa lógica da divisão sexual do trabalho, na qual estabelece tipos de trabalho por sexo: esse é de homem, aquele é de mulher; e hierarquiza: este vale mais, aquele vale menos. E vale menos porque é visto como trabalho de mulher, sem valor agregado, sem qualificação porque já nascemos fazendo isso – segregadas nos trabalhos vistos como uma extensão do que fazemos nos lares: cuidar, educar e servir.

O capitalismo ganha, os empresários ganham, a elite ganha e, em última instância, homens da classe trabalhadora também se beneficiam dessa divisão sexual do trabalho e, infelizmente, se acomodam a ela. Cabe então, a nós mulheres, nos rebelarmos. Não é à toa que crescem os movimentos de mulheres no Brasil e em diversas partes do mundo. Quanto mais rebeldes nos mostramos, mais o patriarcado vai afiando suas garras, atingindo o seu ponto máximo com a violência física e o feminicídio. Isso porque o  patriarcado consiste e existe para manter privilégios dos homens, às custas da situação de servidão e obediência das mulheres que lutam e resistem historicamente contra toda forma de opressão e exclusão. 

Não podemos achar que essas formas extremas de conter a liberdade e autonomia das mulheres, se restringe ao desvio de caráter de um ou outro criminoso (uma mulher é morta a cada 7 horas no Brasil, pelo simples fato de ser mulher).Trata-se de um fenômeno social. E como tal deve ser compreendido e tratado com toda complexidade que o tema merece. Afinal, hoje, essa lógica de opressão das mulheres pelo controle dos nossos corpos e pelo medo ficou ainda mais explícita com o Governo Bolsonaro e seus seguidores.

Se nós, mulheres e homens, que não pactuamos com essa lógica, queremos de fato ser coerentes com os nossos discursos (especialmente os proferidos no 8 de março), temos que mudar a abordagem que  se  dá para as demandas das trabalhadoras formais e informais. 

Não podemos continuar tratando as nossas pautas como específicas, secundárias ou menores. A tendências é só agravar a situação. Enquanto a gente só considerar a situação da trabalhadora como se todas fossem brancas, com emprego formal e com acesso aos serviços públicos ou privados de cuidados, estamos igualmente perdidas na nossa luta. É preciso trazer à tona as piores condições que vivem as mulheres,  tanto na vida, no trabalho e no movimento sindical (como diria a Campanha da CUT) porque essa é a realidade da grande maioria da população feminina. Não é possível, especialmente para nós mulheres, separar a vida pública da vida privada, o pessoal do político.

Deise Recoaro é doutoranda em Sociologia do Trabalho pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), militante feminista da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB) e do Enfrente, tendência política do movimento sindical bancário.

Veja o artigo no Brasil 247.

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