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Liberação de Marcelo Odebrecht é tapa na cara e confirma que no Brasil o crime compensa

Miguel Pereira

O envio do “príncipe” da construção civil pra cumprir prisão domiciliar (rsrsrs) em sua mansão no Morumbi é a prova cabal de toda a degeneração que vive nossa sociedade, particularmente do sistema político e jurídico do nosso país.

A corrupção é sem dúvida o maior mal que assola o sistema democrático. Porque colocam corruptos e corruptores fora e acima das leis. Quando a democracia deveria promover todo tipo de tratamento igualitário.

Se alguém recebe propinas, é porque alguém está disposto a pagar. E ambos, além de fraudar o fisco, a livre concorrência, o erário público, desviam recursos diretamente e também através de sonegação, de bilhões de reais que deveriam ser canalizados para obras e serviços públicos, de necessidades vitais para a grande maioria da população. Ainda mais num país tão díspare e injusto socialmente como o Brasil.

E como, após todo o teatro da lava-jato, que quebrou a economia do país, jogou milhões de pessoas no desemprego e no desespero, às vésperas do Natal, papai Noel é tão bonzinho assim com um dos maiores bandidos da República.

Marcelo Odebrecht foi condenado (???) a quase 40 anos de prisão e após fazer uma “delação” mais que premiada, teve a pena reduzida para 10 anos, cumpriu dois anos e meio, pagou R$ 76 milhões em multas, e taí… tudo resolvido. Dr. Marcelo volta pra casa, com uma tornozeleira eletrônica. Que castigo!

Quantos bilhões esse senhor foi beneficiado em obras públicas? Só o que foi divulgado em pagamentos de propinas a partidos e políticos de todas as siglas, deixa o montante do pagamento do acordo parecendo ninharia.

E pagar com recursos angariados dessa forma, da própria sociedade, é mais trágico ainda.

É, realmente o crime compensa. Pelo menos para alguns, por esse ponto de vista, numa sociedade totalmente amoral.

E o que dizer da tal delação premiadíssima? Delatou, não comprovou o que disse. E a tal planilha da Odebrecht juntada aos autos por um tal setor de pagamento específico de propinas? Vem um alto funcionário, Sr Tacla Duran, que afirma que essa planilha é uma montagem, que informações ali foram adulteradas para tão somente prejudicar o presidente Lula, que representes do próprio ministério público federal, em minúsculas mesmo, tentaram extorquir alguns milhões também, já que estamos vivendo a festa do caqui, que a Odebrecht também efetuou pagamentos a sra. Moro, comprovado inclusive pela receita federal?

Tudo é muito mais grave. Fico aqui indignado, e na dúvida se para além dessa convicção de que fato crimes dessa natureza realmente compensam ou se as estruturas de Estado que deveriam nos demonstrar o contrário e nos esperançar, ou se também deveriam figurar no lado passivo dessa lide?

Fico aqui pensando, assim como sua excelência dr. Moro se sente com seu dever cumprido (?), a ponto de protocolar pedido de licença sabática, mas remunerada por todos nós, também não estaria preocupado com as perícias e todo o material comprobatório do sr. Tacla Duran? E daí a máscara teatral ou a pintura mal feita desapareceria?

A quem recorrer? Sinceramente não sei.

Só sei que, ou aproveitamos todas essas situações para purgar esses e outros males, ou simplesmente acho difícil termos futuro, democracia, “justiça social”, nesse ou em qualquer outro momento de nossa história.

Essa “liberdade” para sr. Marcelo Odebrecht é um escárnio. E não me venham dizer que é a lei.

Sabemos bem como são feitas e a que servem as leis.

Nossos problemas vão muito mais além dessas meras formalidades. O que precisaremos fazer pra que essas situações não apenas nos indigne, mas provoquem reações, e que sejam em cadeia, de preferência e literalmente.


Miguel Pereira é diretor da Fetraf Rio de Janeiro e da Contraf-CUT e da coordenação do EnFrente

 

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