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GDP na Caixa, o nosso 7×1

Por Anabele Silva*

É bastante interessante a Caixa citar, em sua cartilha sobre a ampliação da GDP (Gestão de Desempenho de Pessoas) para todas as funções gratificadas, o exitoso exemplo da seleção alemã em sua longa preparação até a vitória da Copa do Mundo do Brasil em 2014. Embora para nós, donos da casa, a maior lembrança do evento seja a goleada de 7 a 1 que nossa seleção sofreu frente aos germânicos, é impossível ignorar a competência de nosso adversário. O banco, deixando de lado por motivos óbvios o vexame brasileiro, cita como razões do êxito alemão o “planejamento, estratégia e excelência na execução” que o futebol do país buscou para atingir seus objetivos.

Faltou acrescentar a isso uma questão primordial: condições para desenvolver o trabalho. O que parece um detalhe é, na verdade, o X da questão. O time alemão investiu pesado na infraestrutura para seus treinos e na preparação de novos jogadores. Não se desenvolve nenhum objetivo sem condições materiais para tal. Parece ser isso que a Caixa não leva em conta ao lançar seu plano de desempenho e, por outro lado, pode ser justamente isso que vai definir de que lado estaremos no nosso 7 a 1.

A ampliação da GDP ocorre exatamente no momento em que a empresa sofre uma série de ataques do governo federal: diminuição de seu número de empregados, reestruturação das atividades, fechamento de unidades, retirada de direito dos (as) empregados (as) e diminuição de seu papel social, só para citar algumas ações do desmonte em curso. Ainda assim, a Caixa quer cobrar dos (as) bancários (as) que se sintam “responsável por suas entregas” como se nada estivesse acontecendo e, o pior, de modo individual.

Pede-se de modo velado para esquecer as agências lotadas, a sobrecarga de trabalho, a iminência de fechamento de unidades, perdas de funções gratificadas, o adoecimento, a falta de segurança… Para a Caixa, a bancária e o bancário devem pensar, apenas, em suas metas de maneira “smart”.

Nas suas justificativas, a empresa afirma que foi buscar no “mercado” a inspiração para o seu modelo e que tem como premissa principal a “meritocracia”. Dois termos bem comuns de serem falados de maneira frouxa e difíceis de se sustentar de modo consistente.

O “mercado” pode ser muita coisa, inclusive coisas opostas, e responder a diversos senhores. Nesse caso é vital perguntar: a que “mercado” a Caixa busca dar respostas e seguir modelos? As empresas que são citadas na cartilha dão uma dica: Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Pepsi, Samsung, entre outras. Nenhuma que chegue nem perto do cunho social que corresponde ao papel da Caixa. Talvez o Banco do Brasil, que se descreve como “banco de mercado com espírito público”, guarde alguma semelhança, embora não seja necessário explicar muito aqui o quanto tem sido problemático manter esse tal “espírito público” no BB.

Cabe, assim, fazer um parênteses para citar que a missão da Caixa ainda é, pelo menos na teoria, “atuar na promoção da cidadania e do desenvolvimento sustentável do País, como instituição financeira, agente de políticas públicas e parceira estratégica do Estado brasileiro”.  Palavras e conceitos que, na sua maioria, nada guardam de relação com o “Deus mercado”.

Outro ponto problemático é a “meritocracia”. Mesmo sabendo da dificuldade de desconstruir o forte impacto que essa palavra tem no imaginário das pessoas, não posso deixar de tentar. A meritocracia tem no senso comum uma ótima reputação porque é muito vinculada a noção de justiça. Também dá ao indivíduo a esperança de uma melhoria nas suas condições de vida contando apenas com seu esforço próprio. Todavia é preciso desfazer algumas esperanças para dizer que a meritocracia é, na verdade, uma quimera.

Numa sociedade desigual e injusta como a que vivemos não há como dar oportunidades iguais e, assim, essa lógica invés de promover alguma justiça só reforça as desigualdades. Pensemos, só a título de exemplo, que as condições de desempenho das pessoas têm relação com sua formação, sua família, o lugar onde moram, os aparelhos culturais a que têm acesso, sua saúde etc. As “vantagens competitivas”, como cita a Caixa na cartilha, de jovens de classe média sem filhos serão sempre maiores daqueles que têm responsabilidade com suas famílias, seja emocional ou financeiramente. Uma mãe que precisa sair na hora exata para buscar os filhos na escola talvez não possa ter a mesma “responsabilização individual” dos que não têm esse tipo de compromisso.

Então qual seria a solução? Afinal a empresa precisa ser “sustentável”, dirão alguns. Não estou aqui preconizando que não haja busca de resultados e comprometimento dos trabalhadores. Mas é preciso dizer que numa empresa do tamanho da nossa, e com uma missão tão nobre e importante na vida de tantas pessoas, não dá para individualizar a ação e cobrar que cada empregado (a) seja um banco fechado em si mesmo.

A defesa do movimento sindical sempre foi de que as metas precisavam ser coletivas e definidas em parceria com os (as) bancários (as). Investir na “alta competitividade” pode fazer do local de trabalho um verdadeiro ringue, onde cada um está buscando apenas atingir sua meta individual, nem que para isso tenha de viver em eterna competição com o colega de trabalho.

Já sabemos que isso gera ambientes de adoecimento e assédios que vão na linha exatamente oposta da perenidade que a instituição busca. Não enxergo como o fato de colocar um carimbo de “incipiente” na testa do (a) trabalhador (a) resultará no seu “empoderamento” e nem como isso ajuda a encontrar “sentido no seu trabalho”. O que esse modelo de cobrança de metas pode gerar é um clima de pavor, insegurança a respeito do descomissionamento e um total abandono do papel social em prol da política de mercado. Caso esse modelo não seja revisto, e um dos caminhos para isso é a resistência dos trabalhadores, não fica difícil imaginar de que lado estaremos nesse 7 a 1.

Anabele Silva, empregada da Caixa, é secretária de Formação do Sindicato dos Bancários de Pernambuco e diretora da Fenae

4 respostas em “GDP na Caixa, o nosso 7×1”

Texto excelente, trás uma grande clareza do que está acontecendo na Caixa e consequentemente no Brasil.
Não podemos cruzar os braços.
Mais uma perversidade deste governo sem escrúpulo, que retira das mãos do povo, um banco que pode reverter os seus lucros para o povo esquecido do nosso país, sem falar que é um regulador das taxas abusivos dos bancos que já são um absurdo. Imaginem quando tiver só bancos privados!
Parabéns Anabele!

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