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Ganância e avareza não comunicam com ações humanitárias

No dia 25 de março (quarta-feira), vários meios de comunicação anunciaram que os três maiores bancos privados do Brasil – Itaú, Bradesco e Santander – irão contribuir com as autoridades de saúde no combate ao novo coronavírus. A contribuição, segundo noticiado pelo site da revista Exame (em 26/03), consistirá na importação e doação de “5 milhões de testes rápidos de detecção da doença, além de equipamentos médicos, como tomógrafos e respiradores, observando as orientações do Ministério da Saúde e a disponibilidade no mercado”.

Pois bem.

O cenário atual é novo e, entre nós, causa aflição e incerteza sobre a manutenção da saúde coletiva, econômica, política, segurança, emprego e outros aspectos da vida social. Assim, tentar manter a calma e analisar todos os dados possíveis sobre a pandemia causada pelo novo coronavírus é medida que exige mais que prudência – chega a ser virtude –, a fim de evitar a difusão de informações fakes, que sabidamente trazem instabilidade e pânico coletivo.

Logo, por prudência, eis que confesso que aplaudi a postura adotada pelo Itaú, Bradesco e Santander, pois acredito sinceramente que todo tipo de ajuda é muito bem-vindo em momentos de grave crise social. Porém, algo me incomodava internamente. O motivo? Por conhecer o histórico de ganância e avareza dos banqueiros.

Dias depois de tanto matutar sobre o assunto, de reunir alguns “bytes” de informação, meu incômodo falou mais alto e cheguei à seguinte conclusão: por trás da doação dos bancos, socialmente perfeita aos olhos, existem intenções nada humanitárias. Explico.

Desde que passou a ser nação, o Brasil sempre conviveu com frequentes crises que ameaçam a democracia, a economia, aos direitos sociais, individuais e/ou políticos. E nesses ínterins é que sempre surgiram ideias e propostas políticas mirabolantes para salvar trabalhadores e patrões, o país, do “fundo do poço”, por assim dizer.

Para se ter uma ideia, em nossa história recente, e aqui a situo no ano 2017, entrou em vigor a Lei n.13.467, mais conhecida como “REFORMA TRABALHISTA”. E para sua aprovação lembro-me bem que o lobby foi diário e massivo, vindo do garoto propaganda do governo, o presidente interino Michel Temer, a repetição, quase num canto xamânico, de que a aprovação da legislação em espécie ativaria a retomada do crescimento econômico, bem como criaria 2 milhões de novos empregos, porque o mercado externo é atraído por baixo custo de produção (leia-se: baixo custo mão de obra).

No entanto, dois anos após aprovação da REFORMA TRABALHISTA, estudos apontam que poucas vagas de emprego foram criadas. É o que consta no site UOL, quando veiculou matéria esclarecendo que no exercício de 2017, antes da desregulamentação das regras trabalhista, “o país tinha 12,7 milhões de desempregados, número que caiu muito pouco desde então. Fechou setembro deste ano em 12,5 milhões. Foram os empregados sem carteira assinada e trabalhando por conta própria que puxaram essa redução, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)”. (site UOL, publicação em 10/11/2019).

Quanto à renda da classe trabalhadora, o Jornal GGN publicou levantamento elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cujo teor aponta que os mais pobres, nos nove primeiros meses de 2019, foram os únicos que sofreram com as políticas econômicas adotadas dois anos antes. Vejamos:

“A faixa de renda que engloba os brasileiros mais pobres foi a única que perdeu rendimento real nos nove primeiros meses do governo Bolsonaro. Segundo levantamento elaborado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 51,8% dos brasileiros mais pobres não tiveram ou perderam rendimentos durante os três primeiros trimestres deste ano”

“O levantamento usa a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e a inflação por classe social mensurada pelo próprio Ipea. O cruzamento de tais informações mostra que os rendimentos entre os mais pobres caiu nos dois últimos trimestres: 1,43% e 0,34%, respectivamente. No ano, a queda somada é de 1,67%”. (site Jornal GGN, em 18/12/2019).

Pós 2017, mas já sob a presidência de Jair Bolsonaro, outras peripécias políticas foram adotadas de forma igualmente danosas aos direitos da classe trabalhadora, como abandono à política de valorização do salário mínimo, lei da liberdade econômica, reforma da previdência, contrato de trabalho verde e amarelo. Com efeito, pois, por tais políticas, os trabalhadores foram relegados ao campo da disputa de poucas vagas de emprego existentes e, quando existentes, precarizadas.

Nossa história possui outras medidas políticas que foram verdadeiros desastres para a classe trabalhadora. Todavia, se delimitei os exemplos a partir do ano 2017 foi porque aquelas medidas ainda estão muito vivas em nossas memórias, com isso, abrir caminho para dizer que a classe trabalhadora, sem exagero nenhum, sempre pagou um preço muito salgado em nome da recuperação econômica coletiva, leia-se: do país; de todos os segmentos.

E a participação da classe empresarial em cenário de recuperação econômica, mais precisamente do segmento dos bancos, que aqui é o alvo de destaque? “Vai bem, vai muito bem!”, diria sorridente Isaac Sidney, atual presidente da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban).

O motivo de tanta alegria não é por menos, pois, no Brasil, o segmento dos bancos sempre ganhou (e ganha) não importando se a economia vai bem ou mal, conforme vasta informação existente na ferramenta de pesquisa Google. Senão, vejamos dois momentos recentes, porém, distintos da economia brasileira.

No ano de 2015, época em que a Selic chegou na casa dos 14,25% (site Agência Brasil, em 05/02/2020), Itaú, Bradesco e Santander lucraram juntos R$ 48 bilhões, o que representou aumento de 15,5% em relação a 2014, quando ganharam R$ 41,8 bilhões (site SPbancarios, em 04/02/2016). Quatro anos depois, em 2019, ou seja, período em que a renda de 51% dos brasileiros mais pobres caiu 1,67% e a Selic fechou em 4,31%, as mesmas instituições financeiras obtiveram um lucro de R$ 68,8 bilhões, o que representa um ganho de 15,3% superior ao exercício de 2018 (site Valor Econômico, em 12/02/2020).

Portanto, na contramão da maioria da população, da classe trabalhadora, veja que o segmento dos bancos sempre lucrou, em qualquer época e dentro de qualquer cenário econômico. E é aqui que fiquei incomodado por dias a fio, sempre matutando para compreender se os três maiores bancos privados do Brasil agiram realmente por questões humanitárias. Qual resposta eu cheguei? NÃO, eles não agiram por questões humanitárias.

Com efeito, pois, dos dados que expus anteriormente, penso que Itaú, Bradesco e Santander possuem plenas condições de fazer mais pela maioria da população brasileira. Friso: fazer mais, por mais tempo e em todas circunstâncias econômicas, e não somente em contexto pontual. Mais bem-vindo e mais humanitário, penso no fim da expropriação dos mais pobres via cobrança de tarifas escorchantes, na redução dos spreads que chegam à estratosfera, na suspensão das demissões dos trabalhadores bancários e consequente contratação de novos para fornecer ao público um bom atendimento.

Reafirmo: todo tipo de ajuda é muito bem vindo em momentos de grave crise social. Todavia, ao olhar pelo retrovisor a histórica ganância e avareza dos bancos, penso que a ajuda prestada ao Ministério de Saúde, por si só, não tem o condão de apagar ou minimizar a má fama que os bancos gozam perante a opinião pública.

Sim. Ao mencionar má fama, eu insinuei sim que tais doações, por mais nobres que sejam neste momento, não passam de marketing para limpar a tão queimada imagem corporativa das instituições financeiras ou, na melhor das hipóteses, amenizar os efeitos de sua sanha predatória e insana na busca de mais lucros, cada vez mais lucros.

Penso que o fazer “diferença para toda a sociedade”, conforme entrevista concedida por Sérgio Rial, presidente do Santander Brasil, por ocasião do anúncio relacionado à ajuda prestada ao Ministério de Saúde (site Revista Exame, em 26/03/2020), não pode andar afastado de ações perenes e socialmente responsáveis, com visão voltada para uma sociedade justa, igualitária, fraterna, cooperativa e ambientalmente correta. Ações isoladas, cheias de cosméticos e oportunismo, não se comunicam com ações humanitárias.

Para finalizar, informo que a ideia de bancos éticos não é utopia. Ela já existe, assim como existem ensaios dessa natureza na Europa e Canadá, todos inclusive bem recepcionados pela opinião pública. Mas isso é assunto para outro momento.

Juliano Braga é dirigente sindical pela Fetec-CUT/CN

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