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Esquerda portuguesa encontra a fórmula do sucesso econômico

País lusitano, que fez os ajustes mais duros durante a crise na Europa, encontra um caminho para combinar crescimento e uma progressiva recuperação do bem-estar social

El País
Javier Martín del Barrio

Lisboa – “Pela primeira vez desde a adesão ao euro, Portugal cresce acima da média da União Europeia”. O Parlamento Europeu escutou há algumas semanas o primeiro-ministro português, o socialista António Costa, contar a fórmula do sucesso de sua política econômica. “Definimos uma alternativa à política de austeridade centrada em mais crescimento, mais e melhor emprego e mais igualdade”, explicou Costa. “Virar a página da austeridade” foi o lema eleitoral dos socialistas. Se não deu a vitória ao partido, conseguiu atrair o apoio de comunistas e do Bloco de Esquerda para formar governo. A fórmula, batizada depreciativamente como a gerigonçase transformou em um sucesso dois anos depois, apesar do receio de organismos como a Comissão Europeia e o FMI, que velavam pelos bilhões de euros emprestados em 2011 para impedir que o país quebrasse.

A bonança ainda não chegou ao setor industrial. “O setor bancário está melhor, mas o índice de dívidas não pagas continua elevado e é um fator de risco”, diz Irene Mia. Nada comparável ao panorama encontrado por esse Governo, com vários bancos em situação muito grave e que consegui resolver com diversas fórmulas mais ou menos engenhosas. Esperando o retorno do crédito empresarial, o hipotecário dispara. Se nos últimos cinco anos os empréstimos às empresas caíram 36,7%, o empréstimo para comprar apartamentos subiu 327%. A venda de casas aumentou 20,6% no último ano e seu faturamento, 30,6%.

Com os Amorim – reis da cortiça e muito mais – e os Azevedo – telefonia e centros comerciais –, a família Soares dos Santos completa o tripé do grande empresariado português. Nesse caso no setor da alimentação, com sua rede de supermercados Pingo Doce, que emprega mais de 100.000 pessoas na Polônia, Colômbia e Portugal. Seu presidente executivo, Pedro Soares dos Santos, é muito crítico com os governos: “Em Portugal investimos porque somos portugueses, porque se olhássemos o investimento do ponto de vista do crescimento e do retorno, a perspectiva é zero. Para nosso grupo, todas as grandes oportunidades estão fora. Quando a rentabilidade se perde, o investimento estrangeiro deixa de chegar”.  Falta uma visão estratégica de país, segundo Soares dos Santos: “O que queremos ser, onde queremos construir nossa base de crescimento, nosso diferencial. Portugal poderia ser a Califórnia europeia, mas para isso falta um acordo sobre as áreas onde investir”.

Ainda que os organismos internacionais continuem pedindo mais reformas, o ministro da Economia, Caldeira Cabral, responde: “O que acontece é que nossas reformas são diferentes. As reformas do período de ajuste se centraram na legislação trabalhista, muito discutíveis por seus efeitos perniciosos. Meio milhão de jovens qualificados deixaram o país, hoje por outro lado a força de trabalho cresceu em 50.000 pessoas. Nossas reformas, que estão reduzindo o déficit e a dívida, se dirigem à modernização do país. São reformas que o FMI hoje não sabe ver e quantificar, mas que serão vistas a médio e longo prazo. Como o FMI mede o programa Simplex?”. O Simplex é uma das bandeiras do Governo: a eliminação de burocracias e a anulação de milhares de leis, normas e decretos obsoletos e contraditórios. “Antes de abrir uma empresa era necessário conseguir 11 licenças ambientais, agora uma basta”, diz o ministro.

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