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Críticos de arte repudiam censura: Como ser livre calando o outro?

Carta Capital

A Associação Brasileira de Críticos de Arte(ABCA) emitiu nota na tarde desta sexta-feira 29 repudiando atos que tentam censurar a liberdade de expressão artística. O mais recente caso envolve protestos protestos nas redes sociais contra a performance “La Bête”, apresentada pelo Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo na Mostra Panorama da Arte Brasileira.

“Lutamos por uma sociedade plural constituída pelo debate, pelo dissenso e plenamente fortalecida nas mais variadas formas de expressão da cena contemporânea”, defende a nota da ABCA. “Somos contra qualquer forma de censura, pois ela restringe a liberdade de expressão e do conhecimento e tenta retirar da arte sua potencialidade de dissidência e ruptura. Como ser livre tentando calar o outro?”, questiona a associação.

A ABCA fala, ainda, em como as manifestações artísticas se tornaram alvo de conservadores e ameaçadas de censura.”Em uma oposição total aos atos de censura, assumimos a defesa da possibilidade de a arte atuar como elemento desestabilizador das zonas de conforto e das atitudes previsíveis…Temos o dever de denunciar esses atos que contrariam as práticas democráticas que nosso país merece e precisa vivenciar.”

A performance é uma leitura interpretativa da obra “Bicho”, de Lygia Clark, artista historicamente reconhecida por proposições artísticas interativas. Em entrevista a CartaCapital, Felipe Chaimovich, curador do MAM, reafirmou o teor da nota e lembrou que o nu integra a arte há tempos. “O nu está presente em todos os museus do mundo, é parte da história da arte. Faz parte do patrimônio mundial. Não deveria causar choque”, afirma Chaimovich.

O novo episódio ocorre apenas duas semanas depois de Duas semanas depois de o banco Santander determinar o fechamento da exposição Queermuseu, em Porto Alegre, em meio a uma onda de críticas conservadoras. “Em uma oposição total aos atos de censura, assumimos a defesa da possibilidade de a arte atuar como elemento desestabilizador das zonas de conforto e das atitudes previsíveis.

Confira a íntegra da nota:

“A Associação Brasileira de Críticos de Arte, ABCA, ocupa um lugar historicamente importante na luta pelo direito à manifestação livre de ideias do qual não abrimos mão. Neste momento em que ações de maior e menor magnitude atentam contra a livre exposição de obras de artes visuais, não podemos deixar de nos manifestar. Tornamos pública nossa posição: lutamos por uma sociedade plural constituída pelo debate, pelo dissenso e plenamente fortalecida nas mais variadas formas de expressão da cena contemporânea. Somos contra qualquer forma de censura, pois ela restringe a liberdade de expressão e do conhecimento e tenta retirar da arte sua potencialidade de dissidência e ruptura. Como ser livre tentando calar o outro?

As práticas artísticas contemporâneas expõem as contradições do nosso mundo e do nosso tempo. Elas se expandem mais além de seu próprio campo e fogem ao consenso, elas exigem um pensamento aberto. Seu propósito não é apresentar modelos nem dar respostas às muitas questões que se colocam em nossa sociedade, mas trazê-las à tona para reflexão. Esta arte em fluxo permanente estabelece conexões, desafiando-nos a explorar os limites do preestabelecido. Uma arte que se compromete com novas compreensões da realidade, preservando o lugar do desejo e da utopia. Em uma oposição total aos atos de censura, assumimos a defesa da possibilidade de a arte atuar como elemento desestabilizador das zonas de conforto e das atitudes previsíveis.

Evitar o dissenso proibindo a exposição de obras de arte é uma violência com a qual não podemos concordar, a censura é uma ameaça que paira sobre nossa sociedade. Não queremos entrar em um período trágico com a restrição de ideias, sistemas filosóficos e intervenções estéticas. O próximo passo após essas proibições pode ser a anulação dos indivíduos, em inúmeros casos com tortura e assassinato. Temos o dever de denunciar esses atos que contrariam as práticas democráticas que nosso país merece e precisa vivenciar.”

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