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Boulos: a esquerda tem de resgatar suas bandeiras

Tijolaço

Semana passada, Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), em ato na Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, fez uma interessante reflexão sobre a falência dos sistema político e a onda de “antipolítica” que se ergueu no país e embata o discurso da mídia e das elites.

Recortei um trecho e o vídeo em que ele resume este raciocínio:

Há uma descrença completa no sistema político. Descrença que se traduz como antipolítica, como negação da política, insatisfação generalizada do povo com a política ano Brasil. E essa antipolítica lamentavelmente segue sendo canalizada quase que integralmente por alternativas à direita. O fato de a Nova República estar ruindo, não quer dizer que o que vem depois seja melhor que ela. A insatisfação das pessoas com a política aqui não tem se traduzido em mobilização social por direitos e para o aprofundamento da democracia. Tem sido canalizada por caminhos regressivos.

Temos a antipolítica de terno, de gestores e empresários que se apresentam como outsiders, cuja expressão mais simbólica é o João Doria. Mas não foi ele que inventou isso. A antipolítica de terno já se coloca como fenômeno internacional, há o Macri, o Macron, o Trump.

Estamos em uma crise de hegemonia no sistema político brasileiro, que encontra dificuldade de seguir rodando.
A antipolítica também se traduz no Brasil como a antipolítica de farda, com o fenômeno Jair Bolsonaro, que não podemos correr o risco de subestimar. Mas seria um erro fazer uma leitura de que os vinte e tantos por cento de intenção de votos em Bolsonaro trata-se do crescimento no Brasil do voto de ultradireira, ideológico. Não é por aí que se chega no Bolsonaro, não é por esse viés que ele cresce. Ele chega como outsider, alguém que não está no sistema, que quer botar ordem na casa. É aí que ele cresce junto à juventude e não por conta de uma ideologia de ultradireita fascista. Embora, claro, seu crescimento possa fortalecer essa ideologia.

E a antipolítica também deságua pelo caminho da toga, com os salvadores da pátria do Judiciário, que cada vez mais age como uma facção política que tenta canalizar para si uma parte da solução para a falência da Nova República. Isso apresenta para nós a ameaça de uma transição conservadora no país.

O que está em jogo é a transição. Do jeito que está não vai ficar. O sistema político está na lona. Temos que por na mesa os tipos de transição que podem ocorrer no país, pois alguma transição vai ocorrer. Ela pode ser uma transição de regressão democrática, de maior fechamento, e pode ser uma transição de resgate e aprofundamento da democracia. Isso está em disputa.

A situação atual talvez guarde uma analogia com o que foi a transição do final da ditadura militar no governo Figueiredo para a Nova República. Ali também a ditadura tinha perdido a capacidade de coesionar. O índice de aprovação do governo só não eram piores que os do Temer. A ditadura foi perdendo a capacidade de construir lastro social. Uma situação assim leva a riscos. Risco de fenômenos imprevistos como um Bolsonaro, hoje, ou risco de movimentação por baixo, o povo se movimentando e buscando saídas.

Que as pessoas neguem a política não é um fenômeno que devamos aplaudir, mas precisamos compreender de onde ele vem. E vem de um problema real, de um Estado totalmente aberto aos grandes interesses econômicos e fechado à participação popular; vem de uma compreensão tacanha e estreita de que democracia é ir lá apertar um botão de quatro em quatro anos, sem decidir nada no meio do caminho

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