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Bancos vão estender atendimento a abrir aos sábados?

Na semana da edição da MP 905, bancários/as de base trouxeram para o movimento sindical a informação sobre um possível “projeto piloto” em que o Bradesco iria abrir suas agências nos sábados, a contar do dia 30/11/2019.

Naquele momento, após refletir rapidamente sobre mais essa crueldade perpetrada contra a categoria bancária, busquei amenizar o desalento dos colegas de base afirmando que possuíamos convenção coletiva bianual, válida para os anos 2018/2020, de modo que a MP 905 não poderia, por óbvio, ser aplicada imediatamente em virtude do artigo 611-A da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), cujo teor estabelece que “a convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho têm prevalência sobre a lei”.

Todavia, como não cessaram as queixas sobre o tal “projeto piloto”, nós do Enfrente Brasília no dia 26/11 tratamos de buscar informações mais precisas junto às Regionais do Bradesco no Distrito Federal, oportunidade em que nos foi esclarecido, pelos Gerentes Regionais, que não se trata de projeto vinculado à malfadada MP 905, mas sim de acordo firmado com o Banco Central (BC) para promover “ações de educação financeira”.

Pelo mencionado acordo, conforme informação constante no sítio https://portal.febraban.org.br/noticia/3380/pt-br/, os bancos Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, Caixa, Banco do Brasil e Banrisul manterão 261 agências abertas das 10h às 20h, isso de segunda à sexta-feira, e das 10h às 16h, aos sábados. No mesmo sítio, consta inclusive as agências que serão abertas em cada Estado, frisando que do Bradesco, no âmbito do Distrito Federal, duas agências abrirão já no dia 30/11.

Questionados sobre a forma de escalonamento de pessoal, pagamento de hora extra e revezamento do turno de trabalho, asseveraram que não haveria convocação, mas apenas convite para quem quisesse se voluntariar à execução do “acordo” firmado com o BC, recebendo o/a voluntário/a apenas as horas extras. Sobre o revezamento do turno de trabalho, disseram que as unidades Regionais estavam aguardando maiores orientações da Matriz, mais precisamente sobre o “tamanho da demanda”, para só assim comunicarem ao movimento sindical se haverá (ou não) a implantação de dois turnos de trabalho.

Pois bem.

A respeito, temos duas considerações a fazer sobre o assunto em tela: 1ª) do aspecto político; 2º) do aspecto da luta sindical.

Do aspecto político, pensamos que o pomposo nome “ações de educação financeira”, na verdade, não passa de mero lobby do comércio e sistema financeiro junto ao BC para recuperar crédito inadimplido por consequência da má política econômica do Governo Bolsonaro, por conseguinte, fazer com que a população gaste mais numa época em que as pessoas são sugestionadas ao maior consumo, como no período festivo de final de ano. Em outras palavras, trata-se de conflituosa ideologização capitalista da “educação financeira” em que a adimplência acaba criando, em futuro próximo, uma bolha de endividamento impagável.

Com efeito, pois a recuperação de crédito, na maioria dos casos, passa pela coleção de empréstimo para pagar empréstimo, todos em tese facilitados pelo sistema financeiro, e cujo resultado é o fatídico endividamento funcional das famílias brasileira que comprometem parte significativa de suas rendas de subsistência para honrar altíssimos juros rotativos (Cartão e Cheque Especial) bancários.

Do aspecto da luta sindical, pensamos que existe, mais um vez, flagrante ensaio dos banqueiros que há anos buscam abrir as agências bancárias aos sábados, sem a contrapartida da contratação de mais trabalhadores/as para atuarem em dois turnos de trabalho, conforme antigas reivindicações do movimento sindical visando maior geração de empregos. Aplica-se aqui aquela máxima do sistema financeiro, qual seja: “lucrar mais pagando menos”.

Em tempo, resgatamos que a jornada de 6 horas do trabalho bancário, de segunda-feira a sexta-feira, não existe por simples privilégio, mas sim porque há notório reconhecimento de que a atividade bancária, pelas suas peculiaridades e infindáveis cobranças de metas, é extremamente extenuante e leva cada vez mais ao adoecimento físico e psicológico.

Ademais, acreditamos firmemente que não é justo tirar da categoria bancária o único dia da semana em que cada trabalhador/a tem para resolver suas pendências pessoais, assim como para conviver em ambiente familiar e social. Não é justo, pior ainda, ao percebermos que citado “acordo”, vendido como um pacote de bondade para a população, tem como pano de fundo o estufamento dos já estufados cofres do sistema financeiro que usam e abusam da venda de produtos e serviços inúteis e estratosfericamente extorsivos.

São inúmeros os pontos contrários ao alongamento da jornada de trabalho da categoria bancária, tal como imposto pelo citado “acordo” para “ações de educação financeira” e cruelmente atravessado pelo teor da MP 905. Todavia, para que possamos melhor instrumentalizar nossa luta sindical face à primeira espécie de violação de direitos historicamente assegurados, pensamos que cumpre ao movimento sindical exigir urgentemente do BC, com base na Lei de Acesso à Informação, maiores detalhamentos sobre regulares autorizações de funcionamento de expediente bancários em horários e dias diferentes daqueles garantidos tanto em nossa Convenção* Coletiva quanto na CLT, a pretexto de dar ao maior vilão da inadimplência no país o papel de protagonista na educação financeira da população.

Juliano R. Braga, diretor da Fetec-CUT/CN

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