Acordo Teletrabalho do Bradesco

Porque o Enfrente indica aos bancários o voto NÃO

Teletrabalho – Considerações:
Essa modalidade de trabalho é relativamente recente em todo o mundo e seu uso foi generalizado pela Pandemia do Covid19, e como tendência deverá se ampliar num futuro próximo pela redução dos diversos custos. Transfere as rotinas do ambiente interno das empresas para o interior das residências, e por isso se reveste de uma gama de complexidades.
Nem todos os trabalhadores têm um ambiente propício, ou têm um grande grupo familiar, ou mesmo não se adaptam a essa nova realidade. E justamente por isso a OIT – Organização Internacional do Trabalho -, orienta como condição “sine qua non” que haja a manifestação espontânea dos trabalhadores para que essa alteração aconteça. Que não fique apenas a cargo das empresas essas movimentações.
Outras repercussões seríssimas dizem respeito às repercussões no nível de emprego, condições de trabalho e de saúde. Tanto para aqueles que irão trabalhar remotamente como para aqueles que continuarem com o trabalho presencial.
A experiência que temos tido durante esses meses do homeoffice nos bancos no Brasil foi elevação do nível de estresse, retratando a falta de estrutura, de suporte e aumento das cobranças.
Assim como no passado as terceirizações e uso dos correspondentes bancários desfiguraram por completo a atividade bancária, estamos novamente diante de uma nova encruzilhada.
Não estamos dizendo que não é preciso fazer Acordo sobre essa questão. Ao contrário, defendemos uma contratação.
Mas não essa e nem nesses termos.

Diante dessas considerações, passamos a analisar a proposta apresentada no dia de hoje, 10/09/20:

  • a maioria dos itens do Acordo não contempla os interesses e as necessidades dos bancários, e sim busca dar garantias jurídicas ao Bradesco. Ou estão expressos nesse sentido, ou omissos ou insuficientes no que interessaria constar para proteção dos bancários,
  • o método levado a cabo, qual seja, o comando nacional dos bancários foi convocado para tomar ciência de um processo negocial, até então desconhecido, quando na verdade já havia uma proposta final na Mesa e, pior, com o indicativo de assembleias para aprovação já no dia de amanhã, sexta-feira, 11/09, sem a possibilidade de qualquer debate com os bancários.
  • diante das graves repercussões no futuro da atividade bancária e no nível de emprego, essa “pressa” de aprovar, sem ouvir os bancários, não se justifica. Até porque nesse Acordo está expresso que o mesmo não se aplicará durante a vigência do Decreto de Calamidade Pública pelo Covid19 (cláusula 14)
  • A proposta desse Acordo se referencia no texto legal, Art 62 da atual CLT, convalidando os termos da reforma trabalhista, que reconhecidamente foi feita em prejuízo dos trabalhadores. E o texto desse Acordo pouco avança no que deveria fazer diferença na vida dos bancários (Cláusula 1a.)
  • ainda na cláusula 1a. o conceito de teletrabalho é mais elastecido, para além do predominantemente remoto, admitindo que seja em escala menor
  • todas as determinações para o teletrabalho ou sua reversão ficam a critério do banco. Burocraticamente será feito um “de acordo” dos bancários para ingressarem no teletrabalho. Isso não é uma manifestação legítima de vontade.
  • o banco dispõe de meios efetivos de controle de jornadas, caso quisesse, como por exemplo o bloqueio aos sistemas fora da jornada de trabalho por exemplo. Mas nenhuma medida efetiva para que isso não ocorra não é descrita nos termos do Acordo.
  • prever que todos possam adotar o registro de ponto por exceção à jornada regular de trabalho permite a burla ou dificulta o registro de sobretrabalho para os bancários. Portanto, o Acordo não garante o controle de jornada.
  • a única citação relacionada às condições de trabalho remoto diz respeito à proibição de cobranças e/ou reuniões durante os horários de refeições e descanso. Mas quem irá fiscalizar para que isso não ocorra, quando sabemos que é praticamente impossível que isso não prospere?
  • O acordo exclui o fato da utilização de canais e ferramentas tecnológicas, para descaracterizar o regime de prontidão, sobreaviso ou tempo à disposição do empregador. Mas o que dizer do telefone celular? O texto do Acordo deveria especificar os canais.
  • Os termos do Acordo excluem doravante os possíveis gastos com deslocamentos para a prestação de trabalho presencial, quando necessário, ou sequer menciona os casos de visitas a clientes. Até vale transporte será cortado.
  • O banco expressamente se isenta e responsabiliza integralmente os bancários por qualquer acometimento de doença ocupacional futura, por simplesmente fornecer informações sobre normas de saúde e segurança no trabalho. Se isso fosse suficiente não seríamos atualmente a categoria que mais adoece e se afasta para tratamento de saúde, principalmente por doenças psicossomáticas pelas cobranças de metas e condições penosas de trabalho.
  • O contato com o banco deverá ser realizado através de canal disponibilizado especificamente para isso, quando sabemos que a dinâmica e a realidade negocial das agências praticamente inviabiliza o trabalho e a produção diária com esse procedimento,
  • O acordo não prevê mecanismos de acompanhamento e avaliação efetivas e nem periodicidade para esse acompanhamento. Apenas de forma genérica cita que será acompanhado. Quais canais ou setores ficarão responsáveis e receberão as prováveis demandas? Quais os canais de resolução de conflitos, quais as medidas protetivas à exigência de manutenção de sigilo bancário, num ambiente doméstico, com uso de redes privadas, em meio a um mundo de hackers, cujos próprios bancos gastam verdadeiras fortunas para se protegerem? Como proteger os bancários em possíveis casos desse tipo de fraudes?
  • O presente Acordo poderá será estendido para os demais bancários, das demais corporações, por simples manisfestacao de adesão, pelos demais bancos, sem necessidade de consultas à categoria, ferindo o princípio máximo do movimento sindical da democracia pelas bases dos trabalhadores para a realização de Acordos.
  • sendo os bancários uma categoria ampla e negativamente atingida pela rotatividade no emprego, como serão as novas admissões e relacionamento com os bancários que já forem contratados para essa modalidade de trabalho?
  • e à medida que esse modelo de trabalho se consolidar o que será feito dos atuais empregos? agências e departamentos? Extintos gradativamente? E o Acordo não prevê nenhuma garantia mínima de emprego.
  • e por fim. Essa decisão será tomada sem maiores reflexões, debates e principalmente somente com uma consulta plebiscitaria aos bancários do Bradesco, de um dia para outro?
    Por esses motivos nos parece demasiadamente prejudicial aos bancários do Bradesco, e provavelmente aos demais bancários, pelo simples fornecimento de uma cadeira, alguns equipamentos e softwares, cuja responsabilidade naturalmente já são dos bancos, aprovar esse Acordo.
    Bancários do Bradesco, venham com o Enfrente, e vote NÃO!!

Publicado por Enfrente

A Frente Nacional de Resistência e Ação Sindical Bancária (EnFrente), defende os princípios de um sindicalismo democrático, classista, autônomo, de massas e de luta. Queremos radicalizar a democracia e buscar uma forma horizontal de construção de lutas, pautas, mobilizações e enfrentamentos aos ataques contra os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros.

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2 comentários

  1. Super concordo. A aceitação a esta proposta nos tira o direito de reclamar futuramente por diversas causas citadas neste texto com valor incrível.

  2. Este ano tenho visto que assim como nós pensamos diferente sobre diversos assuntos vocês também trouxeram isso. Eu super apoio a ideia de estarmos juntos e pensar diferente. Isso enriquece o diálogo e arrisco a dizer que reafirma a confiança do sindicalizado em seu sindicato.
    Apoio o teletrabalho

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