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A súbita mudança de percepção sobre o assédio sexual

Muitas organizações hoje não estão dispostas a pagar o custo em termos de reputação que implica ter um diretor que assedia. Reportagem de Milagros Pérez Oliva, no El País Brasil.

“Aquelas que rompem o silêncio”. Sob esse título, a revista Time destacou em sua capa de dezembro (na foto) cinco mulheres que tiveram a coragem de denunciar haver sido vítimas de assédio ou abuso sexual. A revista decidiu escolher como personalidade do ano aquelas que protagonizaram a campanha #MeToo (# EuTambém), um movimento social que surpreendeu pela velocidade com que se espalhou e pelos efeitos fulminantes que teve. Desde o caso Weinstein, a denúncia ganhou uma força incontrolável e muitos homens com poder que tiveram que deixar seus cargos depois de terem sido identificados como assediadores.

O mesmo acontece com o assédio sexual. As pesquisas revelam que é um fenômeno muito difundido, mas dificilmente vem à luz porque faz parte das relações de poder. Aqueles que assediam ou abusam são homens que usam o poder para conseguir favores sexuais. No entanto, acontece que agora existem muitas mulheres com formação, autoestima e também poder suficiente para dizer basta. Algumas romperam a barreira do silêncio e muitas outras as seguiram, cansadas de uma humilhação que consideram insuportável. Não é por acaso que o ponto de inflexão tenha sido a queda do poderoso produtor de Hollywood. O fato de que as denunciantes sejam atrizes famosas e com grande projeção pública conferiu reconhecimento ao fenômeno: se elas sofreram assédio, o que não acontecerá com outras mulheres que não têm nenhum poder.

Aí reside outro aspecto fundamental dessa explosão. As poucas que até agora ousaram denunciar quase sempre saíram prejudicadas quando recorreram à justiça, pois muitas vezes era seu comportamento que acabava sendo julgado. Agora comprovaram, para estupefação de muitos assediadores, que existe um sistema muito mais eficaz: a denúncia pública. Por que a mera denúncia agora é eficaz? Por causa da mudança de percepção. Muitas organizações e empresas hoje não estão dispostas a pagar o custo em termos de reputação que implica ter um diretor que assedia. O círculo se fecha. Isso pode causar situações injustas, não devemos descartá-lo, mas teremos de assumir. Mais injusto é o abuso impune, e até agora essa era a situação mais normal.

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