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A fortuna e a virtude dos Fernandos

Leda Paulani
Em Outras Palavras

O povo brasileiro sempre foi conhecido por seu excepcional bom humor. Para o bem ou para o mal, o mote geral parece ser: melhor rir do que chorar. Hoje em dia, com a enorme difusão das redes sociais, em muito facilitada pela quase universalização dos celulares inteligentes, essa graça fica ainda mais evidente. Em qualquer que seja a situação, não se passam mais do que um ou dois minutos para que as primeiras piadinhas, os primeiros trocadilhos comecem a pipocar. E a criatividade é sem fim.

Numa das mensagens mais divertidas que recebi ultimamente, essa com certeza vinda das hostes de apoio à chapa Haddad/Manu, apareceu o seguinte: “Foram quatro os presidentes eleitos depois da redemocratização: Fernando Collor, Fernando Henrique, Lula e Dilma, ou seja, metade se chama Fernando e metade é do PT; então, se o cara se chama Fernando e é do PT, a chance de ser eleito é de 100%.” Achei muito engraçada e inventiva, mas, além disso, a mensagem me despertou para os acasos da história e das circunstâncias (que Maquiavel chamava de fortuna) e para a importância que efetivamente parece ter, na experiência política do país pós ditadura civil-militar, o nome Fernando.

À parte a brincadeira com os nomes próprios, tudo indica que Haddad, o terceiro da dinastia dos Fernandos, tem mesmo chances de vencer a eleição, ainda que outros Fernandos tenham feito de tudo para tirar o país dos trilhos da normalidade democrática. Num façanha notável historicamente, o Brasil corria por esses trilhos havia quase trinta anos, trazendo em seu percurso nada mais e nada menos que sete eleições presidenciais. Até que veio o golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016. Por não se tratar dum golpe clássico, com tanques e tropas nas ruas, muitos não concederam ao fato a enorme importância que ele verdadeiramente tinha, e continua cada vez mais a ter. Pareciam desconhecer que não existe um terceiro quando se fala de instituições e de democracia: ou prevalecem as regras, ou instala-se o arbítrio e, quando este último se instala, não há mais limites, não há freios, não há interditos: predominam os desejos e as vontades tirânicas de quem domina o poder, enquanto se esvaem os direitos e garantias individuais que, ao menos formalmente, o mundo regido pelas regras parece afiançar.

A crônica eleitoral que grassa na grande mídia vem insistindo na tecla da “radicalização” da disputa agora em jogo, ao se referir a um segundo turno quase certo entre o candidato fascista inominável, de um partido insignificante, e Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores. A partir daí, muitos apelos vêm sendo feitos “pelo bom senso”, pela preservação da “democracia”, pela necessidade de impedir esse resultado funesto, pelo “não se sabe o que pode acontecer” (é o que está nas entrelinhas).

Ora, em primeiro lugar, é preciso revelar a inverdade desse tipo de análise. Que a candidatura fascista seja tachada de radical não é o problema evidentemente (embora extremista seja talvez vocábulo mais condizente). Trata-se, aliás, não apenas do fascismo clássico, com as atrocidades que sua história já demonstrou, com um Estado brutal definindo quais seres humanos devem ter direitos, inclusive o mais básico de todos, o direito à vida, e quais não devem tê-los. Infelizmente o fascismo de agora é novo historicamente, pois associa a esse horror o inequívoco fascismo presente nas ideias ultraliberais. Como afirma com razão o filósofo francês Cristian Laval, desde os anos 1980, os princípios das democracias liberais não cessaram de ser continuamente vituperados pelos arautos e seguidores da nova e dura ortodoxia dos mercados, minando com isso as bases da vida social. Hoje os dois horrores se conjugam. Ninguém deveria, pois, se surpreender com a ascensão da extrema direita mundo afora. O Brasil é um caso paradigmático. Enquanto o inominável candidato diz impunemente a milhares de pessoas, numa praça no Acre, que os “petralhas” seriam todos fuzilados, o economista do candidato não deixa por menos e, num dos países mais desiguais do mundo, defende candidamente a “simplificação” das regras do imposto de renda, impondo-se a todos os cidadãos, ganhem eles R$ 1.000,00 ou R$ 100.000,00 mensais, a mesma alíquota de 20%. Não é preciso dizer mais.

Mas cabe o mesmo rótulo de radical a Fernando Haddad? A resposta só pode ser um rotundo não. Não se trata aí de radicalismo, nem dele próprio, nem muito menos de seu partido. Trata-se apenas de defesa da civilização. Alguns dirão benjaminiamente, com razão, que “civilização” em estado puro nunca existiu de fato, trazendo sempre consigo sua carranca bárbara. Mas as incansáveis lutas dos oprimidos e explorados, bem como a existência relativamente recente da ideia do socialismo como norte, foi empurrando o sistema, bem ou mal, para conquistas humanas que devem ser defendidas. É o que está em jogo agora no mundo e no Brasil, já que o horizonte histórico anda agora particularmente rebaixado, fazendo com que se deixe por enquanto de lado os sonhos mais ousados de emancipação humana.

Não foi por outra razão (o sonho da emancipação humana) que, no espectro à esquerda, muitos analistas, inclusive esta escriba, criticaram duramente o caráter extremamente conciliador e fiador dos interesses do grande capital e da riqueza financeira dos governos do Partido dos Trabalhadores. Foram governos fortemente preocupados com o Oscar da desigualdade que o Brasil sempre ostentou, mas nem de longe governos revolucionários. Se de “revolucionário” algo houve, foi simplesmente a tentativa de fazer valer princípios constitucionais que até então eram letra morta.

O Fernando terceiro, humanista, professor universitário, socialista de coração, fez parte desse governo e ajudou a fazer essa sorte de “revolução”, naquilo que eu chamei, em outro lugar, de “uma aventura cidadã, no século XXI, na periferia do capitalismo”. Como prefeito da maior cidade do país, conduziu-a sob os mesmos princípios, buscando resgatar o espaço público, sequestrado pelos interesses puramente privados e privatistas, com eficientes políticas de mobilidade para garantir a todos o espaço que de direito é de todos, e buscando dar dignidade humana àqueles mais penalizados socialmente. Suas políticas e programas tornaram-se exemplos para outros países e amealharam os prêmios internacionais mais importantes e cobiçados de cada área. Se ele tem alguma radicalidade, é o de ser radicalmente democrata.

Mas o mais cômico, ou trágico, dessa tentativa claramente eleitoreira, no pior sentido do termo, de colocar no mesmo saco dos radicais o fascista e o socialista é que a maioria dos que agora pregam um supostamente virtuoso giro para o centro em nome da “preservação da democracia” são os mesmos que não se furtaram em apoiar o dito golpe e desrespeitar os votos de 54 milhões de eleitores. Nesse quesito, o Fernando segundo, com sua patética e cínica carta aos eleitores e eleitoras dada a público em 20 de setembro, é o campeão. É sem nenhum pudor que ele diz que “é hora de juntar forças e escolher bem, antes que os acontecimentos nos levem para uma perigosa radicalização”, e que “pensemos no país e não apenas nos partidos, neste ou naquele candidato”. Ora, é o caso de se perguntar onde estava o Sr. Fernando Henrique em 2016, que não pensou em nenhum momento no país? Onde ele estava que, do alto de sua inequívoca ascendência intelectual e moral sobre o PSDB, sequer tentou brecar o golpe? Por que ele avalizou o apoio de seu partido ao impeachment da presidenta Dilma, dando guarida às intenções golpistas do mimado e corrupto Aécio Neves? Por que assistiu impassível à entrada e à participação dos tucanos no governo de ocupação de Michel Temer?

O Fernando segundo vem cada vez mais se apequenando. Sociólogo renomado, reconhecido internacionalmente, ex-presidente da república, tinha a obrigação histórica de se posicionar ao lado das regras e das instituições, ao invés de fiar aventuras golpistas. O golpe foi insuflado por Aécio Neves, “só pra encher o saco” (palavras do próprio), sob a complacência de quem deveria jogar água na fervura e lutar pela preservação da normalidade democrática. Vir agora dizer que é preciso “buscar a coesão política” para evitar que o “remendo eleitoral da escolha de um salvador da Pátria ou de um demagogo” leve “o barco a naufragar” é não só resultado de uma análise mentirosa e capenga, como chega a beirar o deboche.

Não, a disputa não se dará entre radicais, se dará entre a barbárie e a civilização, barbárie que não teria tido tanto espaço para crescer e animar o poder fardado se a irresponsabilidade política tucana não tivesse jogado o país no caos político e institucional em que agora se encontra. Por trás do fascista há a leviandade do sociólogo que se diz democrata. Que vença o Fernando Haddad, o democrata radical, e que se lhe conceda a possibilidade de pôr em exercício a virtude de inventar o possível, condição maior dos bons governantes, segundo o mesmo Maquiavel, e que ele já demonstrou possuir em outras ocasiões! (E o Fernando Henrique que se recolha ao acanhado e sombrio lugar em que ele próprio se colocou.)

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